Antes da tendência, existe um país
Moda não começa na vitrine. Antes de uma estética chegar às lojas, alguém já estava vivendo, questionando, desejando ou recusando alguma coisa. A roupa registra essas mudanças. Às vezes, participa delas.
Todo ano eleitoral traz de volta a mesma frase: “não gosto de política”.
Ela costuma significar muitas coisas. Pode ser cansaço, desinteresse pelas disputas partidárias ou simplesmente a vontade de não transformar toda conversa em discussão sobre eleição.
Mas existe uma coisa curiosa nessa tentativa de deixar a política de lado: é muito difícil fazer isso quando se vive em sociedade. E mais difícil ainda quando se acompanha moda.
Porque a moda está cheia de política mesmo quando ninguém está falando de política.
Ela aparece na roupa que uma mulher passou a usar para trabalhar, no cabelo que deixou de ser escondido para ser assumido, na estética que nasceu na periferia e depois chegou às vitrines, no corpo que passou a ocupar uma campanha, na camiseta que virou símbolo de uma manifestação, no biquíni que acompanhou mudanças na relação com o corpo e até mesmo na roupa criada para vender uma determinada ideia de Brasil.
E, antes de tudo isso chegar ao nome de uma tendência, já existia alguma coisa acontecendo.
É aí que olhar para moda fica mais interessante.
Não é preciso acompanhar todos os desfiles, saber o que cada marca apresentou em Milão ou reconhecer uma coleção pela silhueta. Também não existe uma hierarquia entre quem acompanha Fashion Week e quem simplesmente gosta de se vestir.
Mas existe uma diferença entre perceber que alguma coisa está na moda e ter curiosidade para descobrir por que ela chegou até ali.
A tendência é o momento em que a história já está acontecendo há algum tempo.
A moda guarda os rastros.
A roupa muda quando a vida muda

A história do vestuário está cheia de mudanças que parecem banais quando chegam às lojas, mas nem sempre foram recebidas dessa maneira.
As calças femininas são um bom exemplo. No Brasil, mulheres já usavam peças associadas ao vestuário masculino, como calças, paletós, coletes e gravatas, entre 1851 e 1911. Uma pesquisa da USP dedicada ao assunto mostra como essas roupas estavam relacionadas a discussões sobre comportamento, feminilidade e os lugares que poderiam ser ocupados pelas mulheres.
Uma mulher de calças não estava necessariamente fazendo uma declaração política consciente. Mas a própria necessidade de discutir se ela poderia ou não usar aquela roupa revelava as regras sociais daquele período.
A relação entre vestuário e trabalho também tem uma história pouco glamourosa.
No Rio de Janeiro do século XIX, costureiras, vendedoras, lavadeiras e outras trabalhadoras participavam da produção, manutenção e circulação das roupas. Muitas dessas mulheres eram escravizadas. Pesquisas sobre o período mostram como o trabalho relacionado ao vestuário estava atravessado por gênero, raça e posição social.
A peça pendurada no cabide é só a última etapa.
Antes dela existe quem costurou, quem vendeu, quem transportou, quem comprou e quem decidiu que aquela roupa seria adequada para determinada pessoa.
A moda nunca foi apenas uma questão de aparência.
Quando a roupa entra na conversa
No Brasil dos anos 1960, a roupa começou a aparecer de maneira particularmente evidente na disputa cultural que acontecia no país.

A Tropicália misturava música, artes visuais, comportamento e referências que não costumavam aparecer juntas. O movimento incorporava elementos da cultura popular brasileira, da cultura de massa e da produção estrangeira, enquanto seus artistas experimentavam também com aparência e figurino. Pesquisas sobre a Tropicália observam justamente essa relação entre estética, juventude, comportamento e contestação cultural.
Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Rita Lee e outros nomes ligados àquele momento não estavam simplesmente procurando uma “identidade visual”.
Havia uma recusa de determinadas regras.
O cabelo, a maquiagem, as roupas, as estampas e a maneira de ocupar o palco faziam parte de uma linguagem que ajudava a produzir a própria imagem daquela geração.
O contexto importava. O Brasil vivia sob uma ditadura desde 1964, enquanto uma parte da juventude experimentava novas maneiras de pensar cultura, comportamento e liberdade.
A roupa não explicava tudo aquilo, mas estava dentro daquilo.
Zuzu Angel levou a ditadura para um desfile

Poucos episódios da história da moda brasileira deixam essa relação tão evidente quanto a trajetória de Zuzu Angel.
Em 1971, depois da prisão, tortura e morte de seu filho, Stuart Angel Jones, pela repressão da ditadura, a estilista apresentou em Nova York uma coleção que denunciava o desaparecimento e a violência sofrida por ele.
Anjos amordaçados, grades, manchas e referências militares apareceram nas peças. O desfile levou para fora do Brasil uma denúncia que o regime tentava silenciar e é estudado como um dos primeiros desfiles-protesto da moda brasileira.
A escolha de Zuzu também tinha uma camada pessoal.
Ela já havia construído uma linguagem de moda associada a uma determinada ideia de Brasil, usando materiais e referências como chita, renda, seda, pedras brasileiras, bambu, madeira e conchas.
Depois, aquela mesma linguagem passou a carregar a experiência da repressão.
É difícil encontrar exemplo mais direto de como a roupa pode registrar o momento político de um país.
Uma camiseta pode virar documento
Treze anos depois do golpe militar, as ruas brasileiras começaram a ser tomadas por uma campanha que pedia o retorno das eleições diretas para presidente.
As Diretas Já reuniram milhões de pessoas em comícios realizados em diversas cidades brasileiras em 1983 e 1984.
A campanha também criou uma imagem facilmente reconhecível: o amarelo das camisetas, faixas e materiais gráficos que apareciam nas multidões.
Uma das camisetas trazia a frase “Eu quero votar pra presidente”.
Não era uma peça feita para uma passarela.
Era uma peça feita para uma multidão.
E é justamente por isso que ela interessa à história da moda. A roupa funcionava como identificação. Quem a vestia comunicava uma posição sem precisar explicá-la individualmente.
Uma camiseta pode ser só uma camiseta.
Também pode ajudar a transformar uma multidão em movimento.
O movimento negro também construiu suas próprias imagens
Durante muito tempo, a moda brasileira apresentou uma ideia bastante estreita de beleza.
A construção da estética negra passou por outro caminho.
Cabelos, turbantes, tecidos, joias, maquiagem e roupas passaram a funcionar, em diferentes contextos, como instrumentos de afirmação da identidade negra. Pesquisas sobre moda afro-brasileira relacionam essas escolhas ao enfrentamento do racismo e à construção da identidade, especialmente entre mulheres negras.
Isso ajuda a olhar para determinadas tendências com um pouco mais de cuidado.
Quando uma referência que nasceu em uma comunidade específica aparece anos depois em uma grande campanha, não surgiu ali.
A indústria pode ter descoberto aquela estética. Pode ter transformado seus elementos em produto. Pode ter dado a eles outro nome.
Mas havia uma história antes da vitrine.
O mesmo vale para o cabelo.
A valorização dos cabelos crespos e naturais não pode ser reduzida a uma tendência de beleza. Ela se relaciona a uma longa discussão sobre racismo, padrões estéticos e representação.
Quando um padrão muda, não muda apenas o catálogo de uma marca.
Muda o que passa a ser visto.
A periferia também cria moda
Existe um hábito de falar sobre moda como se ela sempre descesse das grandes capitais para o restante do mundo.
Não é assim.
Muita coisa acontece na direção contrária.
A moda periférica brasileira constrói códigos próprios em diálogo com música, território, consumo e pertencimento. Pesquisas sobre a indumentária do funk mostram como roupas, tênis, acessórios e outras escolhas visuais fazem parte da experiência dos bailes e da construção de identidades.
Durante muito tempo, esses códigos foram lidos como exagero, inadequação ou simplesmente “estilo de periferia”.
Depois, alguns chegaram ao mercado.
O caminho costuma ser menos lembrado.
Uma estética aparece na rua. É observada. Ganha visibilidade. É fotografada. Começa a circular em redes sociais. Uma marca percebe seu potencial comercial. A referência aparece em uma campanha. Pouco tempo depois, alguém publica uma lista dizendo que aquilo é “a nova tendência”.
A palavra muda.
A história continua sendo a mesma.
A roupa também questiona quem pode ser quem
As fronteiras entre roupa masculina e feminina também foram construídas socialmente.
No Brasil dos anos 1970, a contracultura, o movimento feminista e o movimento gay ajudaram a tensionar essas fronteiras. Uma pesquisa sobre a revista Pop, publicada naquele período, mostra como moda e comportamento apareciam juntos em discussões sobre juventude, sexualidade e novas formas de masculinidade e feminilidade.
A questão permanece atual.
A moda queer brasileira tem explorado justamente a possibilidade de vestir o corpo sem obedecer integralmente à divisão tradicional entre masculino e feminino. Estudos contemporâneos analisam a roupa como ferramenta de expressão e subversão dessas normas.
É por isso que a pergunta “isso é roupa de homem ou de mulher?” não é tão inocente quanto parece.
A roupa não veio com essa classificação costurada na etiqueta.
Alguém construiu essa regra.
E regras sociais podem mudar.
O biquíni também tem uma história
Talvez seja difícil pensar em uma peça mais associada ao Brasil do que o biquíni.
Mas ele também conta uma história de mudança de costumes.
Criado na França em 1946, o biquíni ganhou uma trajetória particular no Brasil. A cultura de praia ajudou a transformar a peça, que passou por diferentes formatos até chegar a modelos cada vez menores, acompanhando mudanças na relação com exposição do corpo, sexualidade e comportamento.
O biquíni brasileiro virou referência internacional.
Mas a liberdade associada a ele sempre conviveu com regras bastante rígidas sobre o corpo feminino.
A mulher pode mostrar o corpo na praia.
Em determinados ambientes, não pode mostrar demais.
Pode ser sensual, desde que dentro do código considerado adequado.
Pode envelhecer, mas não necessariamente continuar sendo representada da mesma maneira.
Pode ter curvas, mas certas curvas são mais aceitas do que outras.
A roupa muda de acordo com o lugar.
O julgamento também.
O que significa “brasilidade”?
A moda brasileira também ajudou a construir uma imagem do país que hoje parece natural.
Quando uma coleção usa folhagens, frutas, cores vibrantes, referências artesanais, elementos indígenas, praia ou uma ideia de sensualidade tropical, está trabalhando com símbolos que foram sendo associados ao Brasil ao longo do tempo.
Nada disso surgiu pronto.
A indústria da moda ajudou a selecionar quais imagens seriam usadas para representar o país.
Pesquisas sobre a construção da brasilidade pela moda mostram como o “tropical” continua funcionando como uma espécie de atalho visual para apresentar uma ideia de Brasil, inclusive no mercado internacional.
Isso pode ser bonito. Pode ser inventivo. Pode ser uma forma legítima de trabalhar referências culturais.
Mas também merece ser questionado.
Porque qual Brasil está sendo mostrado?
O Brasil da praia?
O Brasil do artesanato?
O Brasil indígena?
O Brasil negro?
O Brasil periférico?
O Brasil das grandes cidades?
A resposta muda de acordo com quem está criando a imagem.
E a moda participa dessa escolha.
A roupa tem um preço antes de ter uma etiqueta
Existe ainda a parte menos fotogênica dessa história.
Trabalho.
A indústria do vestuário brasileiro sempre dependeu fortemente da mão de obra feminina e de uma divisão do trabalho marcada por desigualdades. Estudos sobre o setor mostram como essas relações envolveram salários, qualificação, controle e condições de trabalho.
Hoje, a cadeia é ainda mais extensa.
Uma peça pode ter matéria-prima de um país, ser produzida em outro, passar por diferentes fornecedores e ser vendida em vários mercados.
O desastre do Rana Plaza, em Bangladesh, em 2013, expôs de maneira brutal as condições de segurança existentes em parte dessa cadeia global. Mais de mil pessoas morreram no desabamento do edifício que abrigava fábricas de roupas.
Depois disso, falar sobre moda também passou a significar falar mais abertamente sobre responsabilidade empresarial, segurança e direitos trabalhistas.
É difícil separar a peça daquilo que foi necessário para produzi-la.
O algoritmo só chega no final
Hoje, talvez a maior mudança seja a velocidade.
Uma estética pode aparecer em um bairro, em uma comunidade online ou em um grupo específico e, em poucos dias, ser reproduzida milhões de vezes.
O algoritmo ajuda a acelerar esse processo.
A roupa aparece.
Alguém replica.
Uma celebridade usa.
Uma marca produz.
A loja coloca na vitrine.
O consumidor compra.
E pronto: tendência.
Só que o processo não começou ali.
A nostalgia dos anos 1990, o interesse renovado por determinadas peças esportivas, a volta de certas modelagens, a procura por brechós, o desejo por roupas associadas ao trabalho ou a valorização de determinadas referências culturais são fenômenos que podem ter várias explicações ao mesmo tempo.
Nem toda tendência precisa ter uma tese política.
Mas toda tendência existe dentro de um contexto social.
E entender esse contexto é uma das coisas que diferenciam simplesmente usar uma roupa de olhar para a moda.
Você não precisa saber tudo. Mas pode perguntar por quê.
Talvez seja esse o ponto que mais interessa.
Não é preciso gostar de política para gostar de roupa.
Não é preciso acompanhar eleições para comprar uma bolsa.
Não é preciso saber quem foi Zuzu Angel para achar bonito um trabalho inspirado em suas formas.
Não é preciso conhecer a Tropicália para gostar de uma estampa colorida.
Uma pessoa pode simplesmente olhar para uma peça e pensar: gostei.
E está tudo bem.
O que muda é o que acontece depois.
Por que essa peça apareceu agora?
Por que todo mundo começou a querer a mesma coisa?
De onde veio essa estética?
Quem usava antes?
Que comportamento ela traduz?
Quem transformou aquilo em produto?
Quem aparece na campanha?
Quem produz?
Quem compra?
Quem fica de fora?
Essas perguntas não tiram a graça da moda.
Pelo contrário.
Elas fazem a roupa durar um pouco mais na cabeça depois que a tendência passa.
A tendência é só o começo
Da próxima vez que uma estética tomar conta das redes sociais, vale fazer uma pergunta antes de abrir a carteira: de onde veio isso?
Não para transformar cada compra em uma investigação, mas para perceber que a moda não começa quando chega ao shopping ou ao algoritmo.
Uma tendência pode carregar referências de uma comunidade, responder a mudanças de comportamento, recuperar códigos de outra época ou transformar uma expressão cultural em produto. Quando chega às vitrines, boa parte dessa história já aconteceu.
É por isso que acompanhar moda vai além de saber o que está em alta.
A roupa que chega até nós carrega escolhas. Sobre corpo, trabalho, dinheiro, identidade, gênero, território, cultura. Algumas são feitas por quem cria. Outras, por quem consome. Muitas foram construídas muito antes de aquela peça receber o nome de tendência.
No fim, a pergunta não é se moda é política.
Ela é.
A pergunta mais interessante é quanto da política, da cultura e da sociedade a gente consegue enxergar quando olha para uma roupa.
E pode ser que seja justamente aí que começa uma conversa de moda de verdade.
Foto destaque: Taisiia Stupak
Sobre a autora
Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.
Ver todos os textosSe este texto ficou com você...
Louis Vuitton coloca o movimento no centro da ideia de futuro
Hermès encontra leveza sem abrir mão do couro
Vivienne Westwood coloca as costas da roupa em primeiro plano
Gostou desta leitura?
Assine a newsletter da Pitaya e receba histórias como esta quinzenalmente.




