Quando a casa vira lugar de pertencimento
Para a primavera-verão 2027, Marco Rambaldi transforma a ideia de casa em abrigo e espaço de pertencimento. Virginia Woolf, Lisetta Carmi e Nan Goldin aparecem entre as referências de uma coleção que aproxima crochet, denim, volumes femininos e a ideia de família escolhida.
Uma casa pode ser apenas o lugar onde se mora. Para Marco Rambaldi, ela também pode ser o lugar onde uma pessoa finalmente deixa de se explicar.
Foi a partir dessa ideia que o designer construiu sua primavera-verão 2027. A referência inicial veio de Um Teto Todo Seu, de Virginia Woolf, e da ideia de ter um espaço próprio para existir sem julgamento. Rambaldi levou essa noção para uma casa muito mais ampla: um lugar de abrigo, identidade e pertencimento.
As fotografias de Lisetta Carmi e Nan Goldin entraram nesse imaginário. São referências diferentes, mas que, na coleção, se aproximam pela maneira como registram pessoas e espaços íntimos. No trabalho de Rambaldi, essa intimidade encontra ainda a ideia de família escolhida, especialmente importante para pessoas queer que historicamente precisaram construir redes de proteção fora da família tradicional. O próprio casting do desfile reforçou essa comunidade plural.
A roupa acompanha essa construção sem precisar ilustrá-la literalmente.




O crochet, já recorrente no vocabulário de Rambaldi, aparece em flores feitas à mão e unidas em uma espécie de rede que forma um suéter vermelho. As mesmas flores reaparecem em jacquards e peças de tricô. Há vestidos de volumes amplos, saias balão, peças de aparência quase couture e vestidos florais com grandes painéis de tecido nas costas.
Depois, a coleção volta para algo mais familiar: jeans.
É justamente nessa mistura que a ideia de casa fica mais concreta. Peças de crochet vintage são aplicadas sobre calças, shorts, saias e jaquetas de denim e lavadas juntas para criar uma aparência desgastada. O resultado remete aos antigos trabalhos de mesa e cama guardados pelas avós, aqueles tecidos que atravessavam décadas dentro de uma casa antes de desaparecerem de circulação.
Rambaldi não transforma essas referências em nostalgia. Ele pega aquilo que poderia estar guardado em um armário e coloca novamente em movimento.
Há uma delicadeza importante nessa escolha. A coleção fala de pertencimento, mas não tenta definir uma única maneira de pertencer. A casa que aparece aqui é aberta, cheia de pessoas diferentes, roupas diferentes e histórias que não precisam caber no mesmo molde.
Pode ser que, por isso, o crochet e o denim funcionem tão bem juntos. Um carrega a memória do feito à mão, o outro pertence ao cotidiano. Entre os dois, Rambaldi constrói uma roupa que parece ter vivido antes mesmo de chegar à passarela.
No fim, a casa de Marco Rambaldi não é uma arquitetura. É uma condição: ter um lugar onde seja possível vestir aquilo que faz sentido para você.
E sair de lá sem precisar pedir licença.
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