Fashion Weeks

A roupa da avó ganhou outra vida na Dolce & Gabbana

Em Stravaganza Siciliana, Domenico Dolce e Stefano Gabbana transformam o guarda-roupa de família em ponto de partida para a primavera-verão 2027. Rendas, crochet, roupas herdadas, animal print, denim e joias aparecem misturados como se tivessem sido encontrados em diferentes gerações de um mesmo armário.

A imagem mais interessante da primavera-verão 2027 da Dolce & Gabbana talvez não esteja na passarela. Está no armário.

Stravaganza Siciliana, nome dado à coleção, parte da ideia de um guarda-roupa familiar atravessado por gerações. Domenico Dolce contou que, em famílias tradicionais de Palermo, uma neta pode abrir o armário e encontrar roupas das décadas de 1920, 1950 ou 1970, misturando tudo de maneira instintiva.

É uma maneira bastante particular de falar de arquivo porque, nesse caso, o arquivo não pertence à marca. Pertence à família.


Tovaglioli, rendas, peças de enxoval, crochet, brocados, lingerie, animal print, flores e denim aparecem juntos. Há saias que lembram cortinas ou toalhas antigas, conjuntos de crochet, peças que parecem ter saído de um enxoval guardado durante décadas e vestidos que recuperam códigos muito conhecidos da Dolce & Gabbana.

A coleção poderia facilmente ter caído na armadilha da nostalgia. Não cai.

As combinações são deliberadamente livres. Uma peça antiga encontra outra completamente diferente; lingerie aparece durante o dia; renda divide espaço com jeans; um tecido que poderia permanecer associado à casa ganha outra função quando levado para o corpo.

É justamente aí que a coleção encontra sua atualidade.

A moda sempre soube trabalhar com o passado. O que muda é a relação que estabelecemos com ele. Em vez de reconstruir uma determinada década com precisão, Dolce & Gabbana imagina uma pessoa que cresceu cercada por roupas de épocas diferentes e nunca recebeu a instrução de que elas deveriam permanecer separadas.

O resultado é bastante próximo da maneira como um armário real pode funcionar.

Há a roupa que foi da avó, aquela que alguém comprou recentemente, a peça que deveria ser usada apenas à noite, a que já perdeu sua ocasião original e aquela que simplesmente sobreviveu porque ninguém teve coragem de jogá-la fora.

A coleção transforma essa desordem em método.

E talvez seja por isso que a referência à Sicília funcione aqui de maneira diferente de outras temporadas da marca. Em vez de apenas reproduzir uma paisagem ou um imaginário regional, Dolce & Gabbana olha para uma prática: a roupa como herança, lembrança e objeto que continua circulando entre pessoas. A própria Vogue Italia relacionou a coleção à frase de O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, sobre mudar para preservar aquilo que existe.

A roupa da avó volta à passarela, mas não para permanecer no passado.

Ela volta porque alguém ainda pode querer usá-la.

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Redação Pitaya

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