Ermanno Scervino: quando o luxo é feito à mão
Na primavera-verão 2027, Ermanno Scervino coloca o trabalho artesanal no centro da sua ideia de luxo. Camurça perfurada, fitas de organza, nappa trabalhada à mão e passementerie aparecem em peças cuja construção pode levar meses para ser concluída. | Fotos: Vittorio Zunino Celotto
“Luxo” é uma palavra que a moda usa com tanta frequência que, em alguns momentos, ela parece ter perdido o peso. Pode significar uma bolsa, uma experiência, uma loja, uma campanha, um desfile inteiro. Para Ermanno Scervino, na primavera-verão 2027, a definição foi bem mais concreta: luxo precisa de trabalho manual.
“Luxury cannot exist without craftsmanship”, disse o designer nos bastidores do desfile, fazendo questão de destacar que suas peças são produzidas na Itália.
A coleção oferece exemplos bastante específicos dessa afirmação.


Jaquetas e calças de camurça perfurada recebem fitas de organza bordadas como lingerie. Casacos de nappa são patinados manualmente. Um dos tailleurs levou meses de trabalho até atingir a combinação de maciez e brilho desejada por Scervino. Há ainda jaquetas inspiradas no universo corsário, feitas em linho e trabalhadas com passamanarias desenvolvidas especialmente para a coleção.
Nada disso aparece como uma nota de rodapé.
O trabalho está na própria roupa.
A coleção busca referências na Londres de Twiggy e David Bowie e mistura minissaias balão, renda, camurça, peças de aparência corsária e elementos que aproximam a roupa de baixo da roupa de fora. A inspiração pode ser irreverente, mas a execução exige uma quantidade de técnica que não aparece necessariamente na fotografia de uma passarela.
É justamente essa diferença que torna o desfile interessante.
Estamos acostumados a olhar para a moda pelo resultado: a silhueta, a imagem, a celebridade que ocupa a primeira fila, o vídeo que vai circular nas redes. Scervino chama atenção para uma etapa anterior, aquela em que alguém precisa saber exatamente como fazer uma coisa para que ela pareça simples depois de pronta.
Uma superfície patinada à mão não carrega a mesma história de uma superfície produzida para parecer patinada.
Uma renda aplicada depois da peça pronta não conta a mesma história de uma construção pensada desde o início para receber aquele trabalho.
É claro que a moda contemporânea não precisa escolher entre artesanato e tecnologia, e Scervino tampouco propõe isso. O que a coleção recoloca em discussão é outra coisa: em uma indústria obcecada por novidade, ainda existe valor em saber fazer.
Talvez seja uma das discussões mais concretas da temporada.
Porque, no fim, existe uma parte da moda que não pode ser acelerada.
Alguém ainda precisa sentar diante da peça, escolher o fio, trabalhar a superfície, refazer uma etapa e esperar o resultado.
E esse tempo também faz parte do luxo.



Sobre a autora
Quando um texto aparece com esta assinatura, significa que ele foi construído por nossa equipe editorial. Estamos sempre em busca de histórias, ideias e conversas que merecem ser contadas, da cultura ao comportamento, da beleza ao bem-estar, passando por tudo aquilo que nos conecta como pessoas. Porque algumas histórias têm uma autores. Outras, são um pouco de todos nós.
Ver todos os textosSe este texto ficou com você...
Louis Vuitton coloca o movimento no centro da ideia de futuro
Hermès encontra leveza sem abrir mão do couro
Vivienne Westwood coloca as costas da roupa em primeiro plano
Gostou desta leitura?
Assine a newsletter da Pitaya e receba histórias como esta quinzenalmente.




