Moschino depois de Franco: como começar sem começar do zero
Em seu primeiro desfile à frente da Moschino, Loris Messina e Simone Rizzo encontram uma maneira própria de lidar com uma das identidades mais reconhecíveis da moda italiana. Entre referências a Franco Moschino, humor e uma passarela tomada por pessoas comuns, a dupla apresenta sua primeira ideia para o futuro da casa.
No teto de um estacionamento em Milão, centenas de pessoas atravessaram o caminho das modelos.
Algumas falavam ao telefone. Outras passeavam com o cachorro. Havia quem parecesse estar saindo do trabalho, da escola ou de uma festa. Cada uma vestia uma coisa diferente. No meio daquela multidão, as modelos caminhavam na direção contrária, destacadas pelas roupas da nova Moschino.
Era o primeiro desfile de Loris Messina e Simone Rizzo como diretores criativos da casa.
E o cenário dizia bastante sobre a maneira como eles decidiram começar.

A dupla, fundadora da Sunnei, ficou conhecida também pela maneira como transformava apresentações em acontecimentos. Para a estreia na Moschino, a ideia era colocar as roupas no meio de uma espécie de vida urbana inventada, aproximando a passarela de uma rua movimentada.
Rizzo resumiu a intenção de forma bastante direta: as roupas pertencem às ruas, mas também pertencem a pessoas reais.
Isso poderia parecer uma escolha simples, mas não é exatamente o caminho mais óbvio para assumir uma casa como Moschino.
A marca carrega uma das identidades mais fortes da moda italiana. Franco Moschino construiu seu trabalho em torno da ironia, da crítica à própria indústria e da capacidade de transformar os códigos do luxo em piada. Usava referências de outras marcas, slogans e objetos cotidianos para questionar a seriedade do sistema da moda.
Para seus sucessores, o problema não era descobrir como repetir essas ideias.
Era descobrir como não imitá-las.
Messina e Rizzo parecem ter entendido que reproduzir a assinatura de Franco seria uma maneira bastante rápida de tornar a nova fase dependente do passado. Em vez disso, trouxeram para a Moschino algumas das coisas que já faziam parte de seu próprio vocabulário: apresentações que interferem no espaço, cores, humor e roupas que parecem mais interessantes quando encontram pessoas diferentes.
Há, claro, referências ao fundador. Uma camiseta com grafismos remete à sua habilidade como artista. Outras peças brincam com exageros corporais, como um vestido de proporções deliberadamente absurdas e uma camiseta masculina que cria músculos artificiais. Mas o objetivo não parece ser reconstruir uma coleção de Franco Moschino em 2026.
É aí que a estreia ganha alguma importância.
Uma sucessão criativa não precisa começar com uma ruptura barulhenta. Às vezes, começa quando uma casa deixa de perguntar “como ele faria?” e passa a perguntar “o que podemos fazer agora com aquilo que ele deixou?”.
Na passarela, a resposta foi colocar pessoas reais no caminho da roupa.
A Moschino continua fazendo graça com a moda. Continua desconfiando um pouco da pompa que existe ao redor dela. Mas agora essa ironia precisa encontrar uma nova geração.
Franco já fez sua parte.
O primeiro trabalho de Messina e Rizzo é descobrir o que acontece depois.
Sobre a autora
Quando um texto aparece com esta assinatura, significa que ele foi construído por nossa equipe editorial. Estamos sempre em busca de histórias, ideias e conversas que merecem ser contadas, da cultura ao comportamento, da beleza ao bem-estar, passando por tudo aquilo que nos conecta como pessoas. Porque algumas histórias têm uma autores. Outras, são um pouco de todos nós.
Ver todos os textosSe este texto ficou com você...
Louis Vuitton coloca o movimento no centro da ideia de futuro
Hermès encontra leveza sem abrir mão do couro
Vivienne Westwood coloca as costas da roupa em primeiro plano
Gostou desta leitura?
Assine a newsletter da Pitaya e receba histórias como esta quinzenalmente.




