Quando o arquivo vira ponto de partida, não destino
Toda casa de moda carrega uma memória. Algumas fazem dela assinatura; outras precisam descobrir como fazê-la avançar.
Em Milão, Marni, Roberto Cavalli e Emporio Armani chegaram ao arquivo por caminhos diferentes. Meryll Rogge revisita os códigos de Consuelo Castiglioni sem tentar reproduzi-los. Fausto Puglisi transforma o repertório maximalista de Cavalli em novas combinações. E Emporio Armani atravessa o fim de uma etapa antes de entregar sua próxima coleção a Dario Vitale.
Três situações distintas, mas uma questão em comum: como continuar reconhecível quando aquilo que construiu uma marca pertence ao passado?
Na moda italiana, essa pergunta ganhou ainda mais peso nos últimos anos. Casas históricas precisam lidar com arquivos cada vez mais valiosos, códigos que o público reconhece imediatamente e uma indústria que cobra novidade a cada temporada. O desafio está em encontrar o ponto em que memória deixa de ser repetição e volta a ser matéria de criação.

Na Marni, Meryll Rogge está apenas em sua segunda coleção, mas sua relação com a história da casa já aparece com clareza. O trabalho parte dos códigos construídos por Consuelo Castiglioni entre 1994 e 2016, quando Marni consolidou aquela combinação particular de sofisticação, estranheza, cor, matéria e uma certa imperfeição que se tornou parte de sua identidade.
Na primavera-verão 2027, essas referências aparecem deslocadas. Materiais se chocam, acabamentos parecem interrompidos, superfícies ganham novas texturas e algumas peças carregam a sensação de ainda estarem em transformação. Um aeroplaninho de papel aparece entre as referências da coleção e ajuda a conduzir a ideia de leveza que atravessa as peças.
Rogge não tenta apagar o que veio antes, parte dele.
É justamente aí que seu trabalho começa a ganhar contorno: reconhecer o que faz uma Marni ser Marni e descobrir até onde esses códigos podem ir hoje.
Roberto Cavalli parte de uma lógica diferente, mas chega a uma discussão parecida. Para a coleção chamada House of Prints, Fausto Puglisi mergulhou no arquivo da marca e reuniu leopardos, tigres, zebras, tatuagens, flores e outras estampas em combinações deliberadamente exuberantes. O denim aparece cortado, reconstruído, bordado e coberto de aplicações. A sensualidade e o excesso, tão ligados à história da casa, continuam presentes.

O arquivo, porém, não aparece como uma reconstrução dos anos 1990 ou 2000. Puglisi mistura referências de Los Angeles, da cultura hippie e de Saint-Tropez com imagens de Courtney Love, Gwen Stefani e Melissa Auf der Maur e com a memória pop de Sex and the City. Em vez de seguir uma linha do tempo, a coleção aproxima diferentes momentos e imagens que fazem parte do imaginário Cavalli.
A sensualidade permanece, as estampas permanecem e o corpo continua no centro. O que muda é a combinação.

Puglisi também trabalha com peças separadas e elementos mais fáceis de incorporar ao guarda-roupa, aproximando o repertório maximalista da casa de uma ideia de uso cotidiano. É uma maneira de levar o arquivo adiante sem transformá-lo em uma fantasia de si mesmo.
Em Emporio Armani, a questão ganha outra dimensão.

A primavera-verão 2027, criada por Silvana Armani e Leo Dell’Orco, encerra uma etapa da história da marca. Giorgio Armani morreu em setembro de 2025 e, desde então, o grupo passou a organizar sua continuidade criativa. Emporio Armani agora se prepara para um novo capítulo: Dario Vitale será o primeiro diretor criativo de fora da família a assumir a marca.
Apresentada sob o título Tracce del tempo, a coleção chega justamente nesse intervalo. Não houve um grande desfile para marcar a passagem. As roupas foram apresentadas em um formato mais direto, sem transformar a despedida em espetáculo.
Emporio Armani foi criada em 1981 como uma linha mais jovem, urbana e experimental dentro do universo de Giorgio Armani. O próximo capítulo terá outro nome à frente, mas parte de uma identidade construída ao longo de décadas.

E é aí que o arquivo deixa de ser apenas referência estética. Para uma casa histórica, ele também é memória, patrimônio e reconhecimento.
Marni olha para os códigos de Consuelo Castiglioni e os reorganiza. Cavalli transforma décadas de estampas e imagens em um novo repertório. Emporio Armani chega ao fim de uma etapa antes de entregar sua próxima coleção a alguém que não pertence à família.
Nenhuma das três pode simplesmente começar do zero.
Quanto mais longa a história de uma marca, maior o repertório disponível, mas também maior a responsabilidade de decidir o que merece continuar.
O arquivo, nesse sentido, não precisa funcionar como uma vitrine do passado. Pode ser uma ferramenta de edição: escolher, cortar, misturar, deslocar e descobrir o que ainda tem força quando colocado em outro contexto.
Uma coleção que trabalha com história não precisa fazer o público reconhecer exatamente de onde veio cada referência. Basta que exista alguma familiaridade ali, uma memória visual que encontre uma forma diferente de aparecer.
É o que aproxima Marni, Cavalli e Emporio Armani neste momento de Milão.
Não porque estejam contando a mesma história, mas porque nenhuma delas pode se dar ao luxo de ignorar a própria.
O passado já está lá. O trabalho, agora, é decidir o que fazer com ele.
Sobre a autora
Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.
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