Day 3: A roupa depois do desfile
Na Milan Fashion Week SS27, Max Mara e Marni colocam a vida cotidiana no centro de suas coleções, com roupas pensadas para além da imagem produzida pela passarela.
Em algum momento, a moda ficou tão interessada em produzir imagens que começou a deixar em segundo plano uma de suas funções mais básicas: vestir alguém. Não se trata de pedir que a passarela abandone a fantasia ou que o espetáculo deixe de fazer parte da moda. Mas, no terceiro dia da Milan Fashion Week, Max Mara e Marni trouxeram a roupa para uma conversa mais próxima da vida cotidiana. O que acontece com ela quando o desfile termina?

Na Max Mara, Ian Griffiths olha para mulheres que fizeram da própria vida uma espécie de território de exploração. Amelia Earhart, Beryl Markham, Freya Stark, Osa Johnson e Eva Dickson estão entre as referências da coleção primavera-verão 2027, apresentada a partir da ideia de aventura e movimento. A coleção, porém, não transforma essas personagens em fantasias de época. O que chega à passarela são casacos, camisas, calças amplas, jaquetas utilitárias, bolsas grandes e botas, peças que poderiam acompanhar diferentes momentos do dia.
Griffiths foi direto ao explicar essa escolha. Ele disse esperar que quem assistisse ao desfile conseguisse reconhecer algo de si nas roupas e falou sobre uma moda que pode fazer as pessoas sentirem que não são suficientemente jovens, magras ou adequadas para aquilo que está sendo mostrado. Para ele, a passarela é apenas o começo; a apresentação de verdade acontece quando as mulheres levam aquelas roupas para a rua.
A declaração chama atenção justamente porque chega em uma temporada em que o desfile voltou a ocupar muito espaço como experiência.
Milão começou com uma Prada construída em torno das saias. A Fendi transformou a passarela em uma superfície de espelhos. Em diferentes casas, cenário, música, celebridades e imagem passaram a fazer parte daquilo que o público leva consigo depois do desfile. Nada disso é necessariamente um problema. A questão é saber se a roupa continua interessante quando deixamos de olhar para ela dentro daquele enquadramento.
Na Max Mara, a resposta está na própria construção da coleção. Os elementos utilitários aparecem em diferentes proporções e combinações, enquanto tops transparentes, bodies e peças de noite entram em contato com camisas, casacos e jaquetas. A ideia de aventura não exige que a mulher pareça estar partindo para uma expedição. Está mais próxima de uma mulher que precisa de um guarda-roupa capaz de acompanhá-la.
Na Marni, a discussão acontece por outro caminho.

Em sua segunda coleção para a casa, Meryll Rogge continua investigando os códigos construídos por Consuelo Castiglioni: combinações inesperadas, mistura de materiais, contraste de cores e aquela estranheza que nunca parece completamente acidental. A diferença está na maneira como esses elementos são reorganizados.
Há metal aparente, bordados que parecem interrompidos, superfícies de diferentes texturas e uma sensação de que algumas peças ainda estão em processo. As silhuetas mais estreitas convivem com couro, cetim, tricôs trabalhados, tecidos técnicos e casacos de pelo. Rogge não tenta apagar o que veio antes. Está tentando descobrir como esses códigos podem continuar funcionando agora.
E essa é uma distinção importante. Recuperar um código não significa necessariamente reproduzi-lo.
A Marni de Rogge não precisa parecer uma coleção de Consuelo Castiglioni para continuar sendo Marni. O trabalho está justamente em reconhecer aquilo que faz parte da identidade da casa e deslocá-lo o suficiente para que volte a parecer vivo.
É também por isso que Max Mara e Marni fazem sentido lado a lado neste terceiro dia de Milão. Uma chega pela funcionalidade; a outra, pela memória. Mas as duas estão interessadas no que acontece quando a roupa deixa de ser apenas uma imagem de passarela e precisa encontrar espaço no guarda-roupa de alguém.
A pergunta parece simples: você usaria isso?
Para uma indústria acostumada a produzir desejo em poucos segundos, ela não é tão pequena.
Uma roupa pode funcionar perfeitamente como imagem e não encontrar lugar na vida de quem deveria vesti-la. Pode render uma ótima fotografia, uma campanha poderosa, milhares de compartilhamentos e ainda assim depender demais do contexto para fazer sentido.
É nesse ponto que a coleção deixa de ser apenas uma coleção.
Max Mara parece interessada na mulher que vai levar aquela roupa para a rua. Marni, na história que pode ser levada adiante sem precisar ser repetida.
Depois de tantos desfiles pensados também como grandes acontecimentos visuais, talvez o gesto mais interessante do terceiro dia tenha sido este: lembrar que, no fim, alguém ainda precisa vestir a roupa.
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