Fashion Weeks

Quando a passarela esconde a roupa: os espelhos da Fendi e o novo espetáculo da moda

O desfile da Fendi em Milão transformou a passarela em um grande cubo de espelhos. A instalação foi pensada como parte da narrativa de Maria Grazia Chiuri, mas também levantou uma questão sobre o espaço que o espetáculo ocupa dentro de um desfile de moda.

A estrutura espelhada criada para o desfile da Fendi colocou modelos, convidados e reflexos no mesmo campo de visão e acabou chamando atenção para uma discussão cada vez mais presente na moda.

Há uma imagem curiosa no desfile da Fendi para a primavera-verão 2027: uma coleção construída em torno do corpo foi apresentada dentro de uma grande estrutura espelhada.

Maria Grazia Chiuri colocou os modelos dentro de uma instalação inspirada no Cubo di specchi, do artista italiano Luciano Fabro. A estrutura fazia com que modelos, convidados e reflexos ocupassem o mesmo campo visual, alterando a maneira tradicional de observar uma passarela.

A escolha fazia sentido dentro da narrativa da coleção. Também chamou atenção por outro motivo: para parte do público, os espelhos dificultaram a visualização das roupas.

 

Quem está olhando para quem?

O espelho muda a posição de quem assiste.

Em vez de olhar apenas para a modelo, o público também aparece na cena. Os corpos se multiplicam nos reflexos, os convidados passam a fazer parte da composição e a arquitetura deixa de funcionar como um simples fundo.

A escolha ainda conversa diretamente com uma das referências musicais do desfile. “Prisencolinensinainciusol”, de Adriano Celentano, apareceu na trilha e está ligada a uma apresentação televisiva que contou com Raffaella Carrà, outra figura central da coleção. O universo visual de Carrà e da televisão italiana dos anos 1970 aparece, assim, tanto na roupa quanto na construção do espetáculo.

O espelho tinha uma função dentro dessa história. Mas também passou a disputar a atenção com aquilo que acontecia dentro dele.

 

Mas e a roupa?

É aqui que o desfile abre uma discussão interessante.

Alguns veículos e espectadores apontaram que os reflexos dificultavam a visualização dos looks. A questão apareceu justamente porque existe uma expectativa básica em uma apresentação de moda: observar a roupa. Na Fendi, essa observação passou a acontecer através de uma instalação que interferia diretamente no campo de visão.

A situação expõe uma tensão que os grandes desfiles enfrentam há algum tempo. A apresentação precisa ser uma experiência, produzir imagens e permanecer na memória de quem está ali. Ao mesmo tempo, existe a coleção, com seu corte, construção, material e proporção.

Quando o cenário ganha muito espaço, a maneira de enxergar a roupa também muda.

Na Fendi, essa relação foi levada ao limite de uma maneira bastante literal: o público passou a aparecer dentro da própria imagem do desfile.

 

O desfile depois da fotografia

Um desfile já não termina quando a última modelo deixa a passarela. Fotografias, vídeos e reels prolongam a apresentação e fazem com que ela continue circulando muito depois do evento.

Por isso, cenários como o da Fendi têm uma segunda função. Eles criam imagens que podem ser reconhecidas mesmo quando o espectador não viu a coleção inteira.

O problema aparece quando essa imagem começa a se sobrepor à roupa.

Não há nada de novo em transformar um desfile em espetáculo. A moda faz isso há décadas. O que mudou é a quantidade de imagens produzidas e a velocidade com que elas circulam. Hoje, um cenário pode se tornar tão comentado quanto uma peça da coleção.

Na Fendi, o espelho colocou essa discussão dentro da própria passarela. A instalação fez o público olhar para si enquanto observava as roupas e também lembrou que, em uma indústria cada vez mais orientada pela imagem, ainda existe uma diferença importante entre criar uma fotografia marcante e permitir que uma coleção seja realmente vista.

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