Ainda existe uma coisa chamada tendência?
A moda continua produzindo tendências, mas elas já não chegam ao público por uma única direção. Entre microtendências, nostalgia, redes sociais e estéticas que coexistem, o conceito de tendência está mudando.
A moda ainda lança tendências. O que mudou foi a maneira como elas chegam até nós.
Durante boa parte do século 20, essa dinâmica era relativamente organizada. As grandes casas apresentavam suas coleções, as revistas interpretavam as novidades e o varejo levava essas referências ao consumidor. Havia um intervalo razoável entre o que aparecia na passarela e o que chegava às ruas.
A internet encurtou esse caminho. As redes sociais encurtaram ainda mais.
Hoje, uma estética pode surgir em uma comunidade específica, ganhar força no TikTok, aparecer em uma coleção, voltar em uma conta de brechó e perder relevância antes mesmo de se tornar uma tendência de massa.
A Global Fashion Agenda já descreveu esse fenômeno a partir das microtendências: ciclos cada vez mais curtos, alimentados pela velocidade das redes e pela resposta das marcas às estéticas que circulam nos feeds. A organização também relaciona essa aceleração ao aumento do consumo provocado pela necessidade de acompanhar novidades que rapidamente se tornam obsoletas.
Ao mesmo tempo, existe um movimento em direção oposta: a moda também está olhando para trás.
Em janeiro, a Vogue identificou 2016 como uma das primeiras grandes referências culturais de 2026. A nostalgia daquele período apareceu nas redes e na moda, associada à memória de uma internet menos fragmentada e às referências visuais daquela época.
Nas passarelas, também não há uma única direção.
A análise da Vogue para o outono de 2026 encontrou movimentos diferentes convivendo nas coleções: feminilidade, praticidade, glamour, referências históricas e roupas pensadas para oferecer conforto em um período de incerteza.
Na mesma temporada, uma pessoa pode se aproximar do minimalismo dos anos 1990, outra do maximalismo, outra do esporte e outra das referências dos anos 2000. Todas estão acompanhando a moda, mas não precisam chegar ao mesmo lugar.
A própria cobertura das temporadas recentes mostra essa multiplicidade. A Vogue identificou para o verão de 2026 um cenário marcado por individualidade e prazer em se vestir, enquanto as análises do outono apontaram para caminhos estéticos diferentes convivendo nas passarelas.
Há também uma consequência comercial.
Quando uma estética pode ganhar força e desaparecer em pouco tempo, as marcas precisam decidir entre acompanhar o movimento ou investir em peças capazes de atravessar vários ciclos. Para o consumidor, a escolha acontece diante de uma quantidade cada vez maior de referências, vindas de passarelas, redes sociais, celebridades, brechós e comunidades digitais.
As tendências continuam existindo. O que ficou menos evidente é a hierarquia entre elas.
Uma estética pode dominar um feed sem dominar as ruas. Uma peça pode aparecer em várias coleções e continuar sendo usada por poucos. Uma referência de dez anos atrás pode voltar ao mesmo tempo em que outra completamente nova ganha espaço.
Isso torna mais difícil falar em “a tendência da temporada”.
Faz mais sentido falar em repertórios que se sobrepõem. A moda oferece caminhos simultâneos, e cada pessoa decide quais deles fazem sentido para o próprio guarda-roupa.
Por isso, apontar qual será “a próxima grande tendência” ficou mais complicado. Antes de uma estética alcançar todo mundo, outra já pode estar disputando espaço.
Sobre a autora
Quando um texto aparece com esta assinatura, significa que ele foi construído por nossa equipe editorial. Estamos sempre em busca de histórias, ideias e conversas que merecem ser contadas, da cultura ao comportamento, da beleza ao bem-estar, passando por tudo aquilo que nos conecta como pessoas. Porque algumas histórias têm uma autores. Outras, são um pouco de todos nós.
Ver todos os textosSe este texto ficou com você...
Louis Vuitton coloca o movimento no centro da ideia de futuro
Hermès encontra leveza sem abrir mão do couro
Vivienne Westwood coloca as costas da roupa em primeiro plano
Gostou desta leitura?
Assine a newsletter da Pitaya e receba histórias como esta quinzenalmente.




