O tempo de Renata
Aos 42 anos de carreira e recém estreado seu primeiro monólogo, Renata Castro Barbosa fala sobre envelhecimento, corpo, humor, maturidade e a liberdade de se importar menos com a opinião dos outros. | Fotos: Gui Maia
Faltam dois dias para uma mulher completar 50 anos. Ela está sozinha em seu quarto, sem conseguir dormir, cercada por lembranças, inquietações e pelas perguntas que aparecem quando uma fase da vida termina e outra começa. É nesse intervalo entre a madrugada e o amanhecer que se passa “O Tempo Dela”, primeiro monólogo da atriz Renata Castro Barbosa, que estreou no Teatro Glaucio Gill, no Rio de Janeiro, no dia 12 de setembro.
Escrito por Martha Mendonça e dirigido por Bel Kutner, o espetáculo acompanha uma mulher insone diante das mudanças que chegam com a maturidade. Suores noturnos, alterações hormonais e noites maldormidas dividem espaço com questões sobre carreira, relações, família, autoestima, escolhas e os caminhos que ainda podem ser percorridos. A menopausa está presente, mas a história parte de uma pergunta maior: o que fazemos quando percebemos que o tempo passou e que ainda há tanto pela frente?

A pergunta encontra Renata em um momento particular da própria trajetória. São 42 anos de carreira, iniciados ainda muito jovem na televisão, na primeira versão de “Vale Tudo”. Vieram depois trabalhos em “Tieta”, “Caça Talentos”, “A Diarista” e “Zorra”, além de trabalhos no teatro e no cinema. Agora, pela primeira vez, ela encara um monólogo.
A experiência de estar sozinha em cena chega justamente quando a maturidade lhe deu segurança para isso. “Com certeza! Acho que a maturidade me deu segurança para estar sozinha em cena. Sempre amei estar com gente em cena, ter com quem dividir a coxia… E não é só o estar sozinha, é estar falando sobre envelhecer, sobre questões tão próximas a mim nesse momento… Monólogo nunca foi um sonho meu. Foi uma oportunidade que apareceu e resolvi topar.”
O que começou como uma oportunidade acabou se tornando também uma descoberta pessoal. “Estou descobrindo essa Renata mais madura e esse é um processo solitário, acho que para todas nós.” E existe uma responsabilidade particular em saber que, quando o espetáculo começa, não há outro ator para dividir aquele instante.
“Está sendo divertido e profundo, estar em cena sozinha e saber que na hora que o espetáculo começa, só conto comigo para acertos e erros. Estou achando bem interessante! Desafiador!”
A proximidade entre atriz e personagem também aparece no texto. A mulher de “O Tempo Dela” está prestes a completar 50 anos e passa a noite revendo a própria história. Renata reconhece ali algumas questões que também fazem parte de sua vida.
“Tudo no texto passa de alguma forma pelas minhas vivências… Mas acho que ela se revendo jovem, repassar a vida que ela teve, o filho já cresceu… Esses são temas que com certeza me pegaram mais.”
Ela não quer entregar o que acontece no palco, mas acredita que a identificação não ficará restrita às mulheres.
“Não posso falar muito para não dar spoiler, mas acho que muita gente vai se identificar. E não só as mulheres. O ser humano, independente de gênero, em alguma hora na vida para pra se rever e recalcular rota.” E ri.
A ideia de rever a própria trajetória também aparece quando Renata olha para os 42 anos de profissão. A experiência mudou sua maneira de enxergar o trabalho, mas também mudou a maneira como ela olha para a própria vida.
“Nossa… Acho que não só na carreira. Mas na vida. A maturidade e a vivência fazem com que a gente perca um pouco do romantismo das coisas. Faz com que a gente veja tudo com mais racionalidade… As expectativas ficam menores.”
Com o tempo, algumas situações deixam de ser completamente desconhecidas. “Você provavelmente já passou por situações semelhantes, já sabe mais ou menos o que esperar, ou como você reage a certas coisas…”
Ainda assim, saber mais não significa ter todas as respostas. Para Renata, uma das tarefas dessa fase é preservar a capacidade de se surpreender.
“Acho que o grande desafio dessa nova fase, da maturidade, é não perder a esperança e a leveza. Ainda se deixar surpreender com as voltas da vida.”
O curioso é que algumas coisas continuam exatamente onde sempre estiveram. A atriz ainda sente o coração disparar antes de entrar em cena e continua nervosa em testes. “E como atriz ainda fico nervosa em teste, o coração ainda dispara antes de entrar em cena…”
O que mudou foi a forma de lidar com isso.
“Mas, com certeza, me divirto mais hoje do quando era mais nova. Me cobro menos, acho.”
Essa relação menos rígida consigo mesma também atravessa a maneira como Renata encara o próprio corpo. Para uma atriz que começou muito jovem na televisão e passou décadas trabalhando diante das câmeras, o envelhecimento aconteceu também sob o olhar do público.
“É uma cobrança tão cruel, né?! Nunca fui muito focada nessa coisa de corpo perfeito, pele perfeita… Comecei muito nova na TV então acompanhei e acompanharam o tempo passando a cada personagem meu. Isso nunca foi uma preocupação.”
A pressão, ela admite, existe. “Mas claro que sinto essa pressão. Ainda mais trabalhando em televisão. A cobrança e o julgamento são constantes.”
O que ganhou importância ao longo dos anos foi outra coisa. “Minha maior preocupação sempre foi envelhecer com dignidade, tendo autonomia de ir e vir, estar com saúde para poder fazer o que tem vontade…”
E, quando fala sobre as mudanças do corpo, Renata não perde o humor.
“Lógico que meu corpo não é mais o mesmo. Antigamente eu comia um pacote de biscoito e dois dias de academia resolvia. Hoje um bombom e nem a volta na Lagoa Rodrigo de Freitas resolve!” E ri.
“Tento ao máximo não entrar nessa cobrança. Para não envelhecer, só morrendo, então ainda prefiro a primeira opção.”
Não por acaso, o humor ocupa um lugar importante no espetáculo. “O Tempo Dela” trata de assuntos que podem ser difíceis, mas não transforma a personagem em alguém definido apenas pelas dificuldades da maturidade. Para Renata, poder rir dessas experiências muda completamente a conversa.
“Tudo! Qualquer assunto mais difícil, mais complicado, quando dito ou visto com humor fica mais leve.”
Falar sobre o corpo que muda, sobre as escolhas feitas e sobre os erros cometidos sem transformar tudo em peso é, para ela, uma forma de atravessar essas questões.
“Poder falar dessas mudanças do nosso corpo, dos erros que cometemos ao longo da vida, sem pesar o clima é bom demais. Quase uma catarse!”
Ela resume: “Não se levar tão a sério ajuda e muito a fazer com que o que poderia ser um momento difícil, ficar pelo menos mais leve. O Humor salva!”
E há uma questão que atravessa tanto a personagem quanto a atriz: o que fazer com o tempo que passou e com aquele que ainda está por vir?
Renata diz que a resposta mudou com a idade.
“Com certeza. Quando a gente é mais nova, nem pensa no tempo. Temos a certeza que teremos todo o tempo do mundo.”
A consciência da finitude chega junto com a maturidade, e ela não trata isso como uma descoberta simples.
“Na maturidade, querendo ou não, entendemos a finitude e isso é talvez uma das partes mais difíceis do ‘envelhecer’.”
Ao mesmo tempo, perceber que o tempo é limitado trouxe uma vontade maior de aproveitá-lo.
“Ao mesmo tempo, me deu uma urgência de fazer coisas novas, de aproveitar mais a vida, de dar menos atenção a coisas que não são tão importantes…”
A experiência também trouxe uma mudança na maneira como Renata se relaciona com as pessoas. “Na verdade, em nenhuma idade sabemos o tempo que temos para nada, né?! Mas como cheguei até aqui e cheguei bem, faço questão de ser grata e falo mais para as pessoas o quanto elas são importantes pra mim, falo mais o que eu sinto sem muito rodeio.”
E há coisas que ela decidiu simplesmente deixar de carregar.
“A opinião dos outros tem me importado bem menos. E isso é libertador.”
Talvez seja por isso que essa fase também esteja trazendo espaço para experiências que a Renata de outros anos não imaginaria viver. O primeiro monólogo é uma delas. Voltar para a faculdade, outra.
“O monólogo está sendo uma delas, com certeza! Voltar a fazer faculdade, era uma coisa que eu jamais pensei que eu faria, que seria possível… E eu voltei!”
Depois de 42 anos de carreira, a vontade não parece ser a de fazer uma retrospectiva, mas de continuar descobrindo o que cabe na vida.
“Então acho que tem muita coisa que ainda vou inventar para fazer!”
Em “O Tempo Dela”, Renata sobe ao palco sozinha para acompanhar uma personagem que passa uma madrugada inteira olhando para a própria história. Fora dele, a atriz parece estar fazendo algo parecido, só que com outra disposição: reconhecendo o que já viveu, entendendo o que mudou e abrindo espaço para o que ainda pode acontecer.

“O Tempo Dela” está em cartaz no Teatro Glaucio Gill, no Rio de Janeiro, desde 12 de setembro e segue em temporada até 5 de outubro, com sessões aos sábados, domingos e segundas-feiras, às 20h.
Sobre a autora
Mayara Morelli é jornalista, publicitária e editora-chefe da Pitaya mag. Sua especialidade é moda e comportamento, mas a curiosidade costuma levá-la para outros lugares. Escreve sobre tudo aquilo que merece uma boa conversa. Ao longo da carreira, entrevistou artistas, escritores, estilistas e criadores de diferentes partes do mundo. Estudou moda na Università Bocconi, trabalhou com marcas do universo joalheiro no Brasil e em Dubai e atualmente aprofunda seus estudos em cultura e pensamento moderno e pós-moderno pela Wesleyan University. Fora da redação, divide a vida com quatro cachorros que ocupam muito mais espaço do que deveriam. E exatamente o espaço que merecem.
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